Fome global diminui, mas disparidades persistem, alerta relatório da ONU 

A fome global está em tendência de queda pelo segundo ano consecutivo, de acordo com a edição de 2025 do relatório The State of Food Security and Nutrition in the World (SOFI). O relatório, lançado na Segunda Revisão da Cúpula dos Sistemas Alimentares da ONU (UNFSS+4) em Adis Abeba, estima que 8,2% da população mundial (cerca de 673 milhões de pessoas) enfrentaram a fome em 2024. Isso representa uma redução de 15 milhões em comparação com o ano anterior e 22 milhões a menos do que em 2022.

Apesar dessas melhorias, os níveis de fome permanecem acima dos números anteriores à pandemia. A maior parte do progresso foi concentrada no sul da Ásia, na América Latina e no sudeste asiático, enquanto a fome continua a crescer na África e na Ásia Ocidental. Somente na África, mais de 20% da população (307 milhões de pessoas) ainda são afetadas pela fome, destacando disparidades regionais significativas. 

O relatório SOFI é produzido em conjunto pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), o UNICEF, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). 

A insegurança alimentar continua generalizada 

Embora a subnutrição tenha diminuído ligeiramente, indicadores mais amplos mostram uma vulnerabilidade persistente. Em 2024, cerca de 2,3 bilhões de pessoas (quase 28% da população global) enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave. Isso representa 335 milhões a mais do que em 2019, e 683 milhões a mais do que em 2015, ano em que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável foram adotados. 

As projeções sugerem que, até 2030, 512 milhões de pessoas ainda poderão estar cronicamente subnutridas, quase 60% delas na África. Esses dados lançam dúvidas sobre a viabilidade de alcançar o ODS 2 (Fome Zero) até o fim da década. 

Desafios à acessibilidade e à disponibilidade 

Um dos principais obstáculos à recuperação da segurança alimentar tem sido a inflação dos preços dos alimentos. Entre 2021 e 2023, muitos países de baixa renda viram a inflação alimentar disparar, atingindo um pico de 30% em maio de 2023. Embora, globalmente, o número de pessoas incapazes de pagar por uma dieta saudável tenha diminuído de 2,76 bilhões em 2019 para 2,6 bilhões em 2024, esse número aumentou significativamente na África, de 464 milhões para 545 milhões. 

O SOFI 2025 recomenda uma combinação de políticas fiscais direcionadas, fortalecimento da proteção social e investimentos contínuos em sistemas agroalimentares resilientes e inclusivos — especialmente em infraestrutura e inovação — para garantir o acesso a dietas saudáveis para todos. 

Brasil: um estudo de caso em progresso acelerado 

Entre os casos de sucesso apresentados no relatório está o Brasil, que foi oficialmente removido do Mapa da Fome da ONU, com a proporção de pessoas subalimentadas caindo abaixo do limite de 2,5% estabelecido pela FAO (com base na média de 2022–2024). A conquista foi confirmada durante o lançamento do SOFI 2025 na Etiópia. 

Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, 24 milhões de pessoas saíram da insegurança alimentar grave até o final de 2023, e a extrema pobreza caiu para 4,4%, enquanto o desemprego atingiu a mínima histórica de 6,6%. Mais de 1,27 milhão dos 1,7 milhão de empregos formais criados em 2024 foram ocupados por pessoas registradas no Cadastro Único do governo — a maioria beneficiária do Bolsa Família. 

“Esse foi o primeiro e principal objetivo do presidente Lula ao assumir o mandato em janeiro de 2023: tirar o Brasil do Mapa da Fome até 2026”, disse o ministro Wellington Dias. “Conseguimos em apenas dois anos, por meio de políticas públicas robustas e do Plano Brasil Sem Fome. Mas isso é só o começo. Buscamos justiça alimentar e soberania para todos.” 

Esta é a segunda vez que o Brasil sai do Mapa da Fome sob a liderança do presidente Lula. A primeira foi em 2014. Após o desmonte de políticas sociais que levou o país de volta ao mapa entre 2018 e 2020, o Brasil reverteu novamente esse cenário por meio de estratégias sociais, econômicas e agrícolas coordenadas. 

Durante sua presidência do G20 em 2024, o Brasil lançou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. “A conquista do Brasil não é importante apenas para o Brasil. Ela mostra que acabar com a fome rapidamente é possível. O caminho está claro: políticas públicas fortes, participação social, foco nos mais vulneráveis e, acima de tudo, vontade política e financiamento adequado para implementar esses programas”, disse o ministro Dias. “Essa é a abordagem da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.” 

Confira o discurso completo do Ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome do Brasil, Wellington Dias: 

  • Excelentíssima Senhora Vice-Secretária-Geral das Nações Unidas, Amina Mohammed 
  • Presidente da Etiópia, Táí Atské Selassié 
  • Primeira-Ministra da Itália, Giorgia Meloni 
  • Diretor-Geral da FAO, Qu Dongyu 
  • Presidente do FIDA, Alvaro Lario 
  • Diretora Executiva do WFP, Cindy McCain 
  • Economista-Chefe da FAO, Máximo Torero 
  • Senhora Fiona Naringwa, nossa moderadora 
  • Senhoras e senhores, delegados e representantes 
  • Senhoras e senhores presentes aqui e conectados online 

É uma imensa honra, e uma enorme responsabilidade, compartilhar este palco com líderes e autoridades tão distintos para encerrar um evento que trata do tema mais urgente e doloroso: a fome. 

Desde 2015, quando os ODS foram aprovados pela ONU, o mundo tem registrado níveis crescentes de fome e pobreza, passando de 600 milhões de pessoas em situação de fome em 2015 para 750 milhões em 2022. Em 2024, entretanto, a fome global caiu para uma estimativa de 673 milhões de pessoas. 

Desde que o Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva lançou a proposta de revitalizar a Agenda 2030 dos ODS, em especial os Objetivos 1 e 2, no G20 em Nova Délhi em 2023, juntamente com a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, o tema voltou a ganhar destaque em vários países, com apoio de compartilhamento de conhecimento e contribuições financeiras. 

A partir de 2023, a fome deixou de crescer, e a insegurança alimentar voltou a cair, assim como a pobreza. A América do Sul, o Sudeste Asiático e o Sul da Ásia lideraram essa melhora global, mas precisamos apoiar nossos irmãos e irmãs na África, na Ásia Ocidental e no Caribe para alcançar os mesmos resultados. 

Em meio a tantas manchetes desanimadoras, que frequentemente atingem os mais vulneráveis, é animador ouvir números que nos trazem um lampejo de esperança. 

Esse lampejo é o seguinte: a fome global está voltando a cair, mesmo diante de tantas crises e conflitos, com cerca de 673 milhões de pessoas atualmente afetadas. Se olharmos apenas os números globais, essa queda é muito, muito lenta e desigual. Nesse ritmo, levaremos mais de 60 anos para acabar com a fome e, em 2030, quando vence o prazo dos ODS, mais de meio bilhão de pessoas ainda sofrerão com esse flagelo, como outros já apontaram — a maioria delas na África.  

Mas acredito que fui convidado aqui para trazer uma mensagem de esperança e, junto com vocês, ajudar a traçar um caminho à frente. 

O relatório de hoje traz boas notícias ao olharmos regiões específicas. Vemos avanços sólidos no Sudeste Asiático, no Sul da Ásia e na minha própria América do Sul, onde a desnutrição foi reduzida pela metade nas últimas duas décadas, de 8% para 4% da população. Em particular, o relatório traz excelentes notícias sobre o Brasil. 

Tenho grande satisfação em falar sobre essa conquista e reconhecer o trabalho de um incansável defensor na luta contra a fome, um homem que vivenciou a fome em sua própria infância, superou-a e depois ajudou a tirar uma nação inteira dela. Esse homem é novamente nosso presidente: Luiz Inácio Lula da Silva. 

Presidente Lula, sabemos como as políticas conduzidas pelo senhor em seu primeiro mandato permitiram que o Brasil saísse do Mapa da Fome em 2014, para depois retornar em 2021, quando seus sucessores não valorizaram essas lições tão duramente conquistadas. 

Presidente Lula, quando o senhor reassumiu em 2023, prometeu ao povo brasileiro e ao mundo que o Brasil seria novamente retirado do Mapa da Fome. Na primeira vez, foram necessários 11 anos. Desta vez, sob sua liderança e com o trabalho árduo e colaborativo de muitos, foram apenas dois anos e meio. De acordo com o relatório SOFI 2025, o Brasil está novamente fora do Mapa da Fome. 

O relatório mostra que a média dos últimos três anos coloca o Brasil abaixo da prevalência de 2,5% de subalimentação. Essa conquista significa que o Brasil está oficialmente fora do Mapa da Fome. Sei que os números atuais são ainda melhores, já que o relatório ainda inclui dados do último ano da administração anterior. Continuaremos a aperfeiçoar nossas políticas até que nenhuma pessoa no Brasil precise se preocupar se terá café da manhã, almoço e jantar, ou se conseguirá alimentar seus filhos com dignidade. 

Meus amigos, a conquista do Brasil não é importante apenas para o Brasil. Ela demonstra — junto com o progresso na América Latina e no Sudeste Asiático — que acabar com a fome rapidamente é possível. 

O caminho está claro: políticas públicas fortes, participação social, foco nos mais vulneráveis e, acima de tudo, vontade política e financiamento adequado para implementar esses programas. Eles incluem programas de proteção social, apoio à agricultura familiar, sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis, alimentação escolar, nutrição infantil, geração de empregos e empreendedorismo. Juntos, fazem mais do que acabar com a fome: reduzem a pobreza e promovem a dignidade humana. 

Senhoras e senhores, esta é a abordagem da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. 

Com base na visão do presidente Lula, a Aliança Global foi criada para apoiar os países na mobilização e alinhamento de recursos em torno de políticas que já funcionam, lideradas por governos nacionais. 

Hoje, a Aliança reúne 193 membros, incluindo 101 países e 92 instituições: organizações internacionais, bancos de desenvolvimento, instituições financeiras e organizações da sociedade civil. 

O que torna a Aliança única é seu foco na implementação. Ela não cria planos do zero. Busca destravar o potencial de estratégias, planos e políticas já existentes, comprovados, escaláveis e alinhados com prioridades nacionais, mas frequentemente limitados pela fragmentação da cooperação internacional ou pela falta de financiamento. 

Sabemos o que funciona. A Cesta de Políticas da Aliança foi construída precisamente com base nessa evidência. O que os países precisam agora é de financiamento previsível e coordenado para ampliar essas soluções. A Aliança Global é uma ferramenta concreta para tornar isso possível, reunindo políticas públicas, financiamento e parcerias para apoiar quem mais precisa. 

A Aliança já está apoiando países por meio de Planos de Implementação Acelerada voltados ao combate à fome e à pobreza. 

Treze países fazem parte dessa iniciativa, promovendo inclusão econômica rural na Etiópia, em Ruanda e na República Dominicana; proteção social na primeira infância na Palestina e na Tanzânia; e transferências de renda na Zâmbia e no Haiti, entre outros. 

A Aliança somos todos nós. Faço um convite a cada organização, a cada banco multilateral e a cada país: que se unam a nós, começando já com esses primeiros planos de Implementação Acelerada. 

Se conseguirmos reunir o apoio necessário para transformar esses planos em realidade, e inspirar mais países a implementar programas de combate à fome e à pobreza baseados em evidências, mantenho a esperança: não teremos que esperar 60 anos para acabar com a fome no mundo. Porque a fome é urgente. 

Por fim, deixo dois convites: 

Primeiro, juntem-se a nós em 3 de novembro, em Doha, no Catar, para a Primeira Reunião de Líderes da Aliança Global, que ocorrerá durante a Segunda Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Social. 

Segundo, venham à COP30, em Belém, no Brasil. Lá, avançaremos com uma Declaração de Líderes que reafirma o que já sabemos: a luta contra a mudança climática é a mesma luta contra a fome e a pobreza. 

A fome não é um destino, é uma escolha política. O reconhecimento da Aliança Global pelo Secretário-Geral da ONU, António Guterres, confirma que estamos no caminho certo, unindo países para defender o direito humano à alimentação. Como disse Guterres de forma precisa: “O futuro da alimentação é o futuro da humanidade.” 

Não podemos tolerar que a fome seja usada como arma de guerra, nem aceitar que crises alimentares sejam vistas apenas como questão de produção. A fome é, claramente, uma questão de justiça social. 

Muito obrigado. 

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