O Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o Diretor-Geral da FAO, Qu Dongyu, abriram a reunião em Roma, onde os Campeões nomearam o Diretor do Mecanismo de Apoio e renovaram compromissos de alto nível para acelerar os esforços globais para erradicar a fome e a pobreza até 2030.

A instalação do Mecanismo de Apoio da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, a avaliação dos avanços e a definição dos próximos passos foram alguns dos principais temas discutidos na segunda-feira (13 de outubro), durante a Segunda Reunião do Conselho de Campeões da Aliança, realizada na sede da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em Roma, Itália.
O evento contou com a presença do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dos copresidentes do Conselho — o Ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome do Brasil, Wellington Dias, e a Secretária de Estado para Cooperação Internacional da Espanha, Eva Granados —, além do Diretor-Geral da FAO, Qu Dongyu, entre outras autoridades.
Em seu discurso, o Presidente Lula enfatizou fortemente a necessidade de as nações ricas priorizarem o combate à fome em vez dos gastos com armamentos.
“É inaceitável que nós, que lutamos por igualdade, contra o preconceito e a desigualdade, assistamos ao mundo rico gastar US$ 2,7 trilhões em armas, sem investir o mesmo montante para combater a fome e a miséria. Simplesmente não há explicação para isso”, afirmou.
O Presidente criticou o recente aumento nos investimentos militares, questionando a lógica de que mais armas possam encerrar guerras.
“Guerras não terminam com mais armas — terminam com mais comida, mais empregos, mais harmonia e mais paz. É isso que realmente põe fim às guerras”, disse. Lula destacou que a humanidade deve se “indignar com a fome — uma condição inaceitável em um mundo que produz alimento suficiente para todos”.
O Presidente também abordou a necessidade de os governos nacionais integrarem políticas sociais em seus orçamentos.
“É hora de incluir os pobres no orçamento. Inclusão social não pode ser apenas uma promessa — precisa estar refletida na arquitetura fiscal, nos investimentos públicos e nos planos de transformação produtiva.”
Além disso, o Chefe de Estado brasileiro destacou a ligação entre a ação climática e a luta contra a fome e a pobreza, anunciando o objetivo de lançar uma declaração sobre fome, pobreza e clima na COP30.
“Na COP30, em Belém, queremos adotar uma Declaração sobre Fome, Pobreza e Clima. A segurança alimentar deve estar no centro da ação climática. As Contribuições Nacionalmente Determinadas precisam incluir proteção social, resiliência dos pequenos produtores e soluções que gerem renda e preservem a biodiversidade. Somente um novo modelo de desenvolvimento justo e sustentável pode garantir um futuro para as próximas gerações.”
O Ministro Wellington Dias destacou a experiência do Brasil em segurança alimentar e a liderança do Presidente Lula na criação da Aliança durante a presidência brasileira do G20.
“É uma honra representar o Brasil, ao lado da Espanha, na coordenação do Conselho da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. Hoje é um dia especial — estamos lançando oficialmente o Mecanismo de Apoio da Aliança”, celebrou.
Dias apresentou dados que ilustram a magnitude do desafio de erradicar a fome.
“Em 2023, o mundo tinha 735 milhões de pessoas vivendo com fome. Em 2024, esse número caiu ligeiramente para 673 milhões. Isso mostra que, com compromisso, apoio financeiro e compartilhamento de conhecimento, podemos alcançar muito mais”, afirmou.
Em menos de um ano, a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza reuniu 201 membros — 105 países e 96 organizações — com metas ambiciosas para 2030, incluindo alcançar 500 milhões de pessoas com transferências de renda e garantir refeições escolares de alta qualidade para mais 150 milhões de crianças.
Durante o evento, a copresidente Eva Granados defendeu ações de combate à fome baseadas em políticas públicas inclusivas e estruturas financeiras sólidas. Ela também destacou avanços em direção ao Compromisso de Sevilha e outras metas vinculadas à Agenda 2030, reconhecendo, porém, que ainda há muito a ser feito.
“Ainda há muito por fazer. Agora precisamos continuar insistindo na implementação efetiva de nossos compromissos. Precisamos passar das palavras à ação — e é aí que os próximos passos da Aliança são tão cruciais”, afirmou.
Granados também mencionou progressos no desenvolvimento de Planos Operacionais e Planos Nacionais Acelerados para países-piloto, bem como na mobilização de apoio técnico e financeiro.
“Precisamos garantir mecanismos adequados de acompanhamento e indicadores confiáveis. É aqui que o Mecanismo de Apoio desempenha um papel vital. Devemos permanecer coerentes com nossos compromissos e garantir prestação de contas”, acrescentou.
O Diretor-Geral da FAO, Qu Dongyu, elogiou a liderança e a contribuição do Brasil para a segurança alimentar global e destacou a importância da Aliança no enfrentamento da fome e da pobreza no mundo.
“A liderança do Brasil na criação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza — especialmente durante sua presidência do G20 — foi histórica. Projeções indicam que 512 milhões de pessoas poderão estar cronicamente subalimentadas até 2030, quase 60% delas na África. Em 2024, cerca de 2,3 bilhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave. Precisamos enfrentar esse desafio, e a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza é oportuna e incontestável”, declarou.
Lançamento do Mecanismo de Apoio

Na segunda-feira, o Presidente Lula, acompanhado por Wellington Dias, inaugurou o escritório que sediará o Mecanismo de Apoio da Aliança Global, que funcionará como a secretaria da Aliança na sede da FAO em Roma.
O diplomata brasileiro Renato Domith Godinho, Chefe da Assessoria Internacional do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) e recém-nomeado Diretor do Mecanismo de Apoio, explicou que a missão da equipe é coordenar os esforços entre os mais de 200 membros da Aliança. O Mecanismo contará com 15 profissionais distribuídos em escritórios ao redor do mundo, com sede principal em Roma.
“O Mecanismo de Apoio é uma equipe — uma pequena equipe diante do grande desafio de acelerar os esforços da Aliança para acabar com a fome e a pobreza até 2030”, afirmou Godinho.
O Mecanismo apoiará a implementação de programas nacionais, facilitará parcerias e o intercâmbio de conhecimento — incluindo experiências brasileiras bem-sucedidas, como o Bolsa Família e os programas de alimentação escolar —, além de mobilizar recursos financeiros.
Próximos Passos
A Aliança Global está preparando sua Primeira Reunião de Líderes, que será realizada em 3 de novembro, em Doha, no Catar, paralelamente à Segunda Cúpula Mundial das Nações Unidas para o Desenvolvimento Social. O encontro revisará o progresso global, destacará as conquistas do último ano, definirá diretrizes estratégicas para os países membros e incentivará novos compromissos na luta contra a fome e a pobreza.
Após a Segunda Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Social, os membros da Aliança e outras partes da UNFCCC se reunirão em Belém, Brasil, para lançar a Declaração dos Líderes sobre Fome, Pobreza e Ação Climática Centrada no Ser Humano. O texto da Declaração foi negociado no Conselho de Campeões da Aliança ao longo dos últimos meses, antes de ser submetido à aprovação mais ampla.
O Conselho de Campeões, copresidido pelo Brasil e pela Espanha e composto por até 50 membros de alto nível, orienta as ações da Aliança e influencia a tomada de decisões nas instituições parceiras. A primeira reunião do Conselho ocorreu em fevereiro de 2025, à margem do 48º Conselho de Governadores do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA).
A delegação do Presidente Lula em Roma incluiu os Ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar). O evento também contou com a presença da Embaixadora da Etiópia, Demitu Hambisa Bonsa.