Novo relatório propõe um “mecanismo virtual de financiamento” para a proteção social, com a Aliança Global indicada como potencial hub

Nova pesquisa da ODI Global traça um caminho para eliminar as lacunas na proteção social em países que enfrentam vulnerabilidades sobrepostas decorrentes da pobreza, das mudanças climáticas e dos conflitos

Crédito da foto: FAO / Gavin Gosbert e Jerry Mushala

Londres, Reino Unido,18 de dezembro de 2025 – O ODI Global, um think tank independente de destaque lançou um relatório nesta semana que propõe um “mecanismo virtual de financiamento” para a proteção social, capaz de replicar os benefícios de fundos globais bem-sucedidos na área da saúde sem a criação de uma nova instituição. O relatório identifica a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza como a plataforma mais eficaz para sediar e operacionalizar esse mecanismo, com base em sua abordagem liderada pelos países e em seu crescimento contínuo de membros. 

O relatório, intitulado Building Equitable Social Protection Systems for a Sustainable Development Goal Recovery: The Case for a Global ‘Virtual Financing’ Mechanism, foi lançado durante um evento de alto nível em Londres, reunindo formuladores de políticas seniores, instituições multilaterais e representantes de países para discutir como acelerar o progresso rumo à cobertura universal da proteção social até 2030.

Encomendada pelo Foreign, Commonwealth and Development Office (FCDO) do Reino Unido, por meio da iniciativa Social Protection Technical Assistance, Advice and Resources (STAAR), a pesquisa foi desenvolvida com o apoio da Aliança Global. O estudo dá seguimento a um compromisso assumido pelos membros da Aliança durante a Quarta Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento (FfD4), realizada em julho passado, quando foi lançada a iniciativa “Building better integrated finance for SDG 1 and 2”, no âmbito da Plataforma de Ação de Sevilha.

Um sistema fragmentado sob pressão

De acordo com o relatório, aproximadamente US$ 20 bilhões em financiamento internacional são direcionados à proteção social a cada ano, divididos de forma aproximadamente igual entre a cooperação para o desenvolvimento e a assistência humanitária. No entanto, esses fluxos de financiamento operam com objetivos, ciclos de planejamento e modalidades de implementação distintos, o que limita sua eficiência conjunta.

A assistência humanitária por meio de transferências em dinheiro e vouchers, embora direcionada a crises prolongadas e previsíveis, é mobilizada anualmente com limitada previsibilidade e, com frequência, implementada fora dos sistemas nacionais. O financiamento para o desenvolvimento, em geral, é mais previsível, mas frequentemente envolve múltiplos doadores que seguem agendas distintas. Já o financiamento climático permanece, em grande medida, desconectado da proteção social.

Essa fragmentação é mais aguda em 29 países que enfrentam vulnerabilidades sobrepostas decorrentes de crises humanitárias prolongadas, choques climáticos e contextos de fragilidade, conflito e violência (FCV) — precisamente onde a cobertura da proteção social é mais baixa. Nesses países, menos de uma em cada cinco pessoas é coberta por programas de proteção social, com uma cobertura mediana de apenas 11%.

O relatório argumenta que um mecanismo virtual de financiamento poderia coordenar o apoio ao longo da divisão entre a assistência humanitária e o desenvolvimento, além de mobilizar financiamento climático para a proteção social, sem os custos de transação e as negociações prolongadas necessários para estabelecer uma nova entidade multilateral.

Aliança Global posicionada para liderar

Com base nas discussões realizadas durante o Primeiro Encontro de Líderes da Aliança Global, ocorrido em Doha no mês passado, no qual líderes exploraram os contornos de mecanismos integrados de financiamento, o relatório identifica a Aliança como uma plataforma adequada para se articular com esse mecanismo virtual. O foco da Aliança em programas liderados pelos países, seu mandato de promover a articulação de parcerias em torno de planos nacionais por meio de sua Iniciativa de Aceleração (Fast-Track Initiative) e sua estrutura de governança inclusiva, que abrange países doadores e em desenvolvimento, parceiros e organizações, a posicionam para apoiar abordagens de financiamento mais coordenadas.

Falando durante o evento de lançamento, Renato Domith Godinho, Diretor do Mecanismo de Apoio da Aliança Global, destacou a necessidade de uma abordagem pragmática: “Apesar do crescente consenso de que os programas de proteção social podem ser o instrumento para promover, de forma conjunta, resultados humanitários, de desenvolvimento e de resiliência climática, ainda há uma falta de mecanismos práticos para coordenar essa atuação na implementação. O que precisamos são sistemas que concentrem o debate e a ação em torno de programas liderados pelos países, em escala nacional, programas construídos com base em evidências e em sistemas escaláveis.”

“A Iniciativa Fast-Track representa nossa primeira abordagem a esse desafio de coordenação, atuando em articulação com mais de 200 membros da Aliança para apoiar planos nacionais, um a um”, continuou Godinho. “Mas aprendemos que a inércia, processos e cronogramas desalinhados e estruturas organizacionais que não foram concebidas para atuar de forma integrada entre sistemas geram custos reais e complexidade. Um mecanismo mais sistemático, que seja voluntário, discutido por meio de processos inclusivos e que ofereça incentivos financeiros claros, alinhados internacionalmente, poderia complementar os próprios recursos, a liderança e o compromisso dos países para ampliar a cobertura da proteção social.” 

Principais conclusões destacam a urgência 

O relatório destaca várias tendências:

• O progresso rumo à eliminação da pobreza extrema e da fome até 2030 desacelerou de forma significativa, com quase metade da população em situação de pobreza extrema no mundo vivendo atualmente em Estados afetados por fragilidade, conflito e violência (FCV).

• Cortes na ajuda internacional ameaçam reduzir o financiamento da proteção social em US$ 500 milhões ou mais, enquanto a assistência humanitária por meio de transferências em dinheiro e vouchers já caiu de US$ 10,6 bilhões em 2022 para US$ 8,2 bilhões em 2024.

• A ampliação da cobertura da proteção social para 50% nos 29 países mais vulneráveis estenderia a cobertura a 311 milhões de pessoas adicionais. 

• O financiamento climático, que alcançou US$ 22 bilhões para adaptação em 2024, atualmente desempenha um papel insignificante na proteção social, com apenas US$ 186 milhões comprometidos em 2022–2023.

O relatório defende a criação de um mecanismo virtual no âmbito da Aliança Global, respaldado por compromissos de financiamento vinculados a metas globais de resultados, para superar a divisão entre a assistência humanitária e o desenvolvimento por meio de um planejamento conjunto. O relatório também insta à integração do financiamento climático ao planejamento nacional da proteção social, com base na Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Climática Centrada nas Pessoas, adotada na COP30.

Do diálogo inclusivo à execução coordenada 

O relatório surge depois que os países anunciaram em Doha planos concretos de implementação com vários parceiros para programas nacionais de grande escala. Até o momento, a Iniciativa Fast-Track da Aliança Global validou 9 pré-planos de países e recebeu mais de 85 manifestações de interesse de instituições financeiras internacionais, doadores bilaterais, agências da ONU e filantropos. 

O mecanismo virtual de financiamento proposto neste relatório – ou qualquer novo mecanismo relacionado acordado entre os atores relevantes – pode se apoiar nessa base, ao mesmo tempo em que amplia a capacidade de coordenação entre os fluxos de financiamento humanitário, de desenvolvimento e climático.

Relatório completo disponível

O relatório completo, Building Equitable Social Protection Systems for a Sustainable Development Goal Recovery: The Case for a Global ‘Virtual Financing’ Mechanism, está disponível no site socialprotection.org e por meio da iniciativa STAAR.

Sobre a ODI Global 

O ODI Global é um dos principais think tanks independentes do mundo nas áreas de desenvolvimento internacional e questões humanitárias. Por meio de pesquisa, articulação de diálogos e influência, o ODI atua para viabilizar soluções para os maiores desafios globais.

Contato com a mídia: [email protected]

Sobre a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza 

Lançada durante a Cúpula do G20 no Brasil, em 18 de novembro de 2024, a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza cresceu para mais de 200 membros, incluindo mais de 100 países, a União Africana, a União Europeia, 24 organizações internacionais, 9 instituições financeiras internacionais e mais de 30 organizações filantrópicas e não governamentais. A Aliança tem como objetivo acelerar o progresso em direção aos ODS 1 e 2 por meio do fornecimento de apoio coordenado de seus membros a políticas e programas nacionais, de grande escala e baseados em evidências.

Contato com a mídia: [email protected]

Sobre as instalações da STAAR

A iniciativa STAAR (Social Protection Technical Assistance, Advice and Resources), implementada pela DAI Global UK Ltd e financiada pelo Foreign, Commonwealth and Development Office do Reino Unido, oferece apoio técnico para fortalecer os sistemas de proteção social em nível global.

VER MAIS

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Os projetos bem-sucedidos poderão ser incluídos no conjunto de programas a serem implementados em diferentes países, no âmbito da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, proposta pela presidência brasileira do G20. A expectativa é que o documento a ser apresentado na reunião ministerial que será realizada em julho, no Rio de Janeiro, seja finalizado até sexta-feira, no encontro que está sendo realizado em Teresina, Piauí.
Reunião do G20 social contou com a colaboração de lideranças da sociedade civil para a construção dos termos da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza do G20. De forma inédita, a presidência brasileira impulsionou esse grupo a debater as políticas que vão ser apresentadas ao fórum com as maiores economias do mundo.
Como membro fundador, o país terá acesso a recursos e programas adaptados para reduzir a pobreza e a fome por meio de abordagens baseadas em evidências.